slack-for-ios-upload-7

A quinta essência

Abrigo em mim o meu escravo
e o meu senhor:
o meu súbdito
e o meu professor.
A minha liberdade contida
e a minha fraqueza chorada.

No meu corpo dão as mãos: com as pernas
Na minha alma se fundem: nesta teia armada.
Nesta guerra esgotada.

Fugirei, então – em busca da água
e do vento
e do fogo
e da terra
e da paz.
Encontrarei, então – a quinta essência
e a Mãe
e o Pai
e o outro
e os outros.
Darei comigo contigo
enrolados num espaço – sem tempo
numa espiral – sem arestas
numa quadrada – sem género
numa estrada – sem fundo
num sentimento – efémero.

E aí, meu corpo é o meu mundo

E a tua alma – a minha ilha.
E o teu nome – a minha Natureza desnuda.

Texto de Diana Carvalho
Fotografia de Jorge Caldas Santos
7b77c66c8f5bf8a4a168e6dcc687530f

A fuga

Tem dias em que sentimos a vergonha daquilo que somos, das decisões que não tomamos, dos momentos que não vivemos. A vergonha que nos preenche por não termos decidido, por termos ficado e não ido, por termos escolhido não ir. Porque o meu fugir foi ficar e não partir.
Um dia sentimos que não vivemos o que somos, mas que nos sujeitamos ao que os outros vivem.
Um dia acordamos e sentimos que a fuga de não ter ido era melhor do que ter ficado.

0891603e8582868793099d8bd1374255 (1)

Colhido no peito

Um sabor me amargura a
boca prensada e seca.
Não sei o que sentir ou
falar, quando os pés que andam me
machucam a cabeça que pensa – quieta.
Tatuo o corpo contigo.
Todo o meu corpo contigo.
E atas-me pelos braços lisos
e brancos
esguios,
tardios
do teu abraço tão quente.
Deixo-me laçar pela vontade
de te abraçar mais loucamente,
persistente dos meus
sentidos:
calafrios de amor ardente.
Deixo-me percorrer no
peito escuro,
maduro,
de saliente caroço dormente.
E é no teu peito que me esfumo,
com este fumo – invisível desfeito.
E é no teu peito colhido,
amarelecido, sustento perdido:
que me deixo colher no peito.

Follow my blog with Bloglovin

b3e5a138007315e2ebe514fded70f2f3

Triste Amante

De noite fazias silêncio.
Mexias no vento debaixo da casa onde moravas.
Deixavas os lenços voarem sozinhos
– apagados e enxotados no canto,
Deste quarto jamais chamado de teu.

De noite voavas sozinho.
Por entre as sombras das nuvens mais escuras
E por baixo dos céus mais longínquos
E por cima de mim – me deixavas
Acompanhada pelo chão a que me condenavas.

Mas a meio do dia tu vinhas.
E me davas a luz do sol brilhante
E os teus beijos me chamavam de gente
E os teus braços me amarravam doente
E sempre que de volta te abraçava eu:
fugias, aclamando o meu amor de triste amante.

Follow my blog with Bloglovin

17d9bc3735a5a4384ec44cb06b4b1512

As ameixas maduras

Escolho o copo onde te sirvo,
de coração pequeno
– mas largo na espessura – do desejo em te provar.

Vejo a tua cor avermelhada, viva…
escarlates de tons
castanhos claros de amêndoas açucaradas.
Sabes-me a mel e eu não me queixo…
uvas passas te saltam descaradamente
e o esvoaçar das ameixas maduras
me deixa com vontade de um pouco mais
– de ti.

Levas meus lábios
com sabor tão forte
que não esqueço o teu jeito
de crescer mais… cada vez que respiras.

a922d7c9d6e0826a0c9011e6d67b10c9

A saudade do teu silêncio

Havia uma manhã
em que me sentava na janela e ouvia
os teus sons que me chegavam de lá de fora
e pensava que um dia
haveria de ser eu a fazer ruídos
e tu a ouvir-me gritar,
cada vez mais alto,
o som dos ventos que assobiavam nos meus ouvidos.

Havia noites
em que era mesmo eu a fazer ruídos,
a chamar-te com medos que eram meus
e eras tu que vinhas e
me acalmavas,
que torneavas,
me acariciavas com as tuas mãos
de Pai maior
e me davas o silêncio
que eu tanto queria.
O teu silêncio era a minha paz.

Houve um dia
em que deixei de te ouvir,
em que as lágrimas faziam
barulhos
duros
demais.
Em que a cabeça era tão grande
– e tão vazia
que o meu corpo doía por estar tão descompassado,
largado,
perdido,
escorrido,
fingido,
cheio de nadas (que me obrigavam a dar tudo),
quando o que eu mais queria
era ter o tudo que tu me davas
com tão pouco.

Há um hoje
em que ainda penso em ti
e sinto a revolta de não ter-te comigo.

Há um hoje
em que ainda choro
a primeira lágrima do ontem quando não te vi.

Há um hoje
que deseja olhar-te, ver-te,
apalpar a tua mão na minha,
querer abraçar-te
e apertar-te
maior
e mais alto
e ouvir o teu silêncio único,
sozinho,
tão meu,
tão nosso.

Há um hoje
em que o teu silêncio
era tudo o que eu queria ouvir
– agora.