O vestido amarelo dela

Ela dançava na rua, enquanto descia a calçada
e os seus braços dançavam com ela
e ela levava aqueles olhos verdes – tão grandes
que eu me deixava ir descendo, junto com ela.
Depois, os seus pés brilhavam no caminho dela
como se a brilhantina do caminho dela
fosse feita do pó da estrada
libertando – em cada passo solto, um após o outro,
a direcção que dentro de mim ela caminhava,
e os seus cabelos longos e soltos
faziam a minha mente sonhar
como sonham os deuses depois de morrerem
e depois de viverem eternamente
nos sonhos de quem já soube amar.
As suas mãos macias percorriam as minhas palavras
como se, por cada letra escrita
e com a tinta desta minha caneta,
os seus dedos soltassem indizíveis caricias
nos poemas que eu escrevia
e apenas por imaginar
o brilho do seu olhar,
e as suas mordidas lembravam aquelas
que eu queria morder
um dia, quem sabe, se a encontrasse:
por entre os seus lábios e a sua voz tão doce
como se doce fosse o alimento que eu comia
e a falta dele me desse um vazio
nessa minha alma tão vazia.
E o seu vestido rolava tão sereno
como se a serenidade nascesse ali mesmo
e por dentro daquela saia amarela,
e por cima dos pés dela,
e com o meu amor ao lado
com o meu coração tão apertado.

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Um dia acontecerá

O que acontece quando vemos
o que não queríamos ter largado,
quando sabemos que
o que olhamos
nos suga a visão tão limpa
por toda essa sede infindável de querer tocar
mas estar longe
– demais
para esticar um braço e
abrir uma mão?

O que acontece quando
a visão ao longe é o substituto mais fiel dos abraços
e dos beijos
e dos afagos
no cabelo que eu já não posso sentir

de tanta saudade que já senti?

O que acontece é que o mundo
avançou e andou pelas ruas

– da vida
e eu permaneci a andar com ele
mas na minha direcção, cansando os meus pés
e o meu caminho
e tu foste noutro caminho, com os teus pés lindos.

Um dia acontecerá que os nossos olhos
se cruzarão novamente
como a saliva de um mar revolto
saciando a vontade das nossas vidas se amarem.

Um dia cruzarei
meus pés
nos teus, eternamente.

A quinta essência

Abrigo em mim o meu escravo
e o meu senhor:
o meu súbdito
e o meu professor.
A minha liberdade contida
e a minha fraqueza chorada.

No meu corpo dão as mãos: com as pernas
Na minha alma se fundem: nesta teia armada.
Nesta guerra esgotada.

Fugirei, então – em busca da água
e do vento
e do fogo
e da terra
e da paz.
Encontrarei, então – a quinta essência
e a Mãe
e o Pai
e o outro
e os outros.
Darei comigo contigo
enrolados num espaço – sem tempo
numa espiral – sem arestas
numa quadrada – sem género
numa estrada – sem fundo
num sentimento – efémero.

E aí, meu corpo é o meu mundo

E a tua alma – a minha ilha.
E o teu nome – a minha Natureza desnuda.

Texto de Diana Carvalho
Fotografia de Jorge Caldas Santos

A fuga

Tem dias em que sentimos a vergonha daquilo que somos, das decisões que não tomamos, dos momentos que não vivemos. A vergonha que nos preenche por não termos decidido, por termos ficado e não ido, por termos escolhido não ir. Porque o meu fugir foi ficar e não partir.
Um dia sentimos que não vivemos o que somos, mas que nos sujeitamos ao que os outros vivem.
Um dia acordamos e sentimos que a fuga de não ter ido era melhor do que ter ficado.

Colhido no peito

Um sabor me amargura a
boca prensada e seca.
Não sei o que sentir ou
falar, quando os pés que andam me
machucam a cabeça que pensa – quieta.
Tatuo o corpo contigo.
Todo o meu corpo contigo.
E atas-me pelos braços lisos
e brancos
esguios,
tardios
do teu abraço tão quente.
Deixo-me laçar pela vontade
de te abraçar mais loucamente,
persistente dos meus
sentidos:
calafrios de amor ardente.
Deixo-me percorrer no
peito escuro,
maduro,
de saliente caroço dormente.
E é no teu peito que me esfumo,
com este fumo – invisível desfeito.
E é no teu peito colhido,
amarelecido, sustento perdido:
que me deixo colher no peito.

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Triste Amante

De noite fazias silêncio.
Mexias no vento debaixo da casa onde moravas.
Deixavas os lenços voarem sozinhos
– apagados e enxotados no canto,
Deste quarto jamais chamado de teu.

De noite voavas sozinho.
Por entre as sombras das nuvens mais escuras
E por baixo dos céus mais longínquos
E por cima de mim – me deixavas
Acompanhada pelo chão a que me condenavas.

Mas a meio do dia tu vinhas.
E me davas a luz do sol brilhante
E os teus beijos me chamavam de gente
E os teus braços me amarravam doente
E sempre que de volta te abraçava eu:
fugias, aclamando o meu amor de triste amante.

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