A quinta essência

Abrigo em mim o meu escravo
e o meu senhor:
o meu súbdito
e o meu professor.
A minha liberdade contida
e a minha fraqueza chorada.

No meu corpo dão as mãos: com as pernas
Na minha alma se fundem: nesta teia armada.
Nesta guerra esgotada.

Fugirei, então – em busca da água
e do vento
e do fogo
e da terra
e da paz.
Encontrarei, então – a quinta essência
e a Mãe
e o Pai
e o outro
e os outros.
Darei comigo contigo
enrolados num espaço – sem tempo
numa espiral – sem arestas
numa quadrada – sem género
numa estrada – sem fundo
num sentimento – efémero.

E aí, meu corpo é o meu mundo

E a tua alma – a minha ilha.
E o teu nome – a minha Natureza desnuda.

Texto de Diana Carvalho
Fotografia de Jorge Caldas Santos

A fuga

Tem dias em que sentimos a vergonha daquilo que somos, das decisões que não tomamos, dos momentos que não vivemos. A vergonha que nos preenche por não termos decidido, por termos ficado e não ido, por termos escolhido não ir. Porque o meu fugir foi ficar e não partir.
Um dia sentimos que não vivemos o que somos, mas que nos sujeitamos ao que os outros vivem.
Um dia acordamos e sentimos que a fuga de não ter ido era melhor do que ter ficado.

Colhido no peito

Um sabor me amargura a
boca prensada e seca.
Não sei o que sentir ou
falar, quando os pés que andam me
machucam a cabeça que pensa – quieta.
Tatuo o corpo contigo.
Todo o meu corpo contigo.
E atas-me pelos braços lisos
e brancos
esguios,
tardios
do teu abraço tão quente.
Deixo-me laçar pela vontade
de te abraçar mais loucamente,
persistente dos meus
sentidos:
calafrios de amor ardente.
Deixo-me percorrer no
peito escuro,
maduro,
de saliente caroço dormente.
E é no teu peito que me esfumo,
com este fumo – invisível desfeito.
E é no teu peito colhido,
amarelecido, sustento perdido:
que me deixo colher no peito.

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Triste Amante

De noite fazias silêncio.
Mexias no vento debaixo da casa onde moravas.
Deixavas os lenços voarem sozinhos
– apagados e enxotados no canto,
Deste quarto jamais chamado de teu.

De noite voavas sozinho.
Por entre as sombras das nuvens mais escuras
E por baixo dos céus mais longínquos
E por cima de mim – me deixavas
Acompanhada pelo chão a que me condenavas.

Mas a meio do dia tu vinhas.
E me davas a luz do sol brilhante
E os teus beijos me chamavam de gente
E os teus braços me amarravam doente
E sempre que de volta te abraçava eu:
fugias, aclamando o meu amor de triste amante.

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As ameixas maduras

Escolho o copo onde te sirvo,
de coração pequeno
– mas largo na espessura – do desejo em te provar.

Vejo a tua cor avermelhada, viva…
escarlates de tons
castanhos claros de amêndoas açucaradas.
Sabes-me a mel e eu não me queixo…
uvas passas te saltam descaradamente
e o esvoaçar das ameixas maduras
me deixa com vontade de um pouco mais
– de ti.

Levas meus lábios
com sabor tão forte
que não esqueço o teu jeito
de crescer mais… cada vez que respiras.

A saudade do teu silêncio

Havia uma manhã
em que me sentava na janela e ouvia
os teus sons que me chegavam de lá de fora
e pensava que um dia
haveria de ser eu a fazer ruídos
e tu a ouvir-me gritar,
cada vez mais alto,
o som dos ventos que assobiavam nos meus ouvidos.

Havia noites
em que era mesmo eu a fazer ruídos,
a chamar-te com medos que eram meus
e eras tu que vinhas e
me acalmavas,
que torneavas,
me acariciavas com as tuas mãos
de Pai maior
e me davas o silêncio
que eu tanto queria.
O teu silêncio era a minha paz.

Houve um dia
em que deixei de te ouvir,
em que as lágrimas faziam
barulhos
duros
demais.
Em que a cabeça era tão grande
– e tão vazia
que o meu corpo doía por estar tão descompassado,
largado,
perdido,
escorrido,
fingido,
cheio de nadas (que me obrigavam a dar tudo),
quando o que eu mais queria
era ter o tudo que tu me davas
com tão pouco.

Há um hoje
em que ainda penso em ti
e sinto a revolta de não ter-te comigo.

Há um hoje
em que ainda choro
a primeira lágrima do ontem quando não te vi.

Há um hoje
que deseja olhar-te, ver-te,
apalpar a tua mão na minha,
querer abraçar-te
e apertar-te
maior
e mais alto
e ouvir o teu silêncio único,
sozinho,
tão meu,
tão nosso.

Há um hoje
em que o teu silêncio
era tudo o que eu queria ouvir
– agora.