a tragicidade da forma humana. breve solitude existêncial

Não é estranho de se ver e de se sentir que a humanidade vive em função da fatalidade dos seus dias? Pois tanto quanto sabemos, o humano procura uma vivência acima e superior do que qualquer outra sua semelhante. Quantos de nós nos seus dias mais delicados e preguiçosos vivemos atrás de algo que nos suscite a emoção pela negativa? Querer sentir que estamos sós, para nos vangloriarmos de que realmente somos capazes e praticamente os únicos que sobrevivemos neste mundo infâme, trágico e sem escrúpulos. Mas afinal, o que se passa connosco? O que realmente queremos da nossa noite e do nosso dia, senão a felicidade de saber estar com o outro e o querer sentir na pele as carícias da bondade e da coragem de partilhar o que é nosso e o que é dele?
Queremos um mundo de vampiros à meia-noite, e queremos um tiro no peito que nos arrebate contra o carro assaltado minutos antes. Queremos uma carga de porrada na mente de sangue e umas pernas que correm mais que qualquer fugitivo de PalmingStreet, que nem sequer existe no mapa.
O que desejamos é que a nossa vida não seja mais uma, assim pequenina como a dela que encontrei no autocarro. Queremos emoção e originalidade, como estas sandálias novas cor-de-rosa que comprei agora mesmo. Diferentes. Novas. Em que se eu derramar uma lágrima sobre elas, não valerão menos, mas muito mais acima disso que se chama ouro de quantos quilates.
Queremos o mundo a nossos pés depois do sofrimento, e a vida retirada pela naifa que conseguimos quebrar. Quero chegar a casa e olhar de relance para ver o mundo a desabar acima de mim como se o meu filho não fosse viver mais. Quero ser o salvador da pátria – essa! – que tantos heróis destemidos já teve, mas que agora resto apenas eu, sem poderes a mais que uma formiga que não dorme. Quero saltar o oceano e ser astronauta e não astrónomo, pois esse não entra na história.
Consigo sobreviver a mais uma linha? Não sei, está dificil, duas lágrimas ajudam, conversa nenhuma com ninguém porque não há compreensão para mim, sou único e insubstituível na minha família, pois estou atrás do segredo.
A tragicidade é algo que o comum ser humano deseja ter em si como algo seu mas que é de todos, pois apenas tem sentido em sermos trágicos todos juntos.
Incêndios? Há muitos, mas como o meu, não houve nenhum.
Férias? Há muitas, mas como a do Ministro, não há nenhuma igual.
Sou triste, sou meramente triste, sem trágico ou fatal, sou tão comum que até nem sei viver sem ter em ti no pensamento.
A diferença é que eu sei que o sou, e tu não. Trágico. Assim fatal, acertei-te bem.

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