As ameixas maduras

Escolho o copo onde te sirvo,
de coração pequeno
– mas largo na espessura – do desejo em te provar.

Vejo a tua cor avermelhada, viva…
escarlates de tons
castanhos claros de amêndoas açucaradas.
Sabes-me a mel e eu não me queixo…
uvas passas te saltam descaradamente
e o esvoaçar das ameixas maduras
me deixa com vontade de um pouco mais
– de ti.

Levas meus lábios
com sabor tão forte
que não esqueço o teu jeito
de crescer mais… cada vez que respiras.

A saudade do teu silêncio

Havia uma manhã
em que me sentava na janela e ouvia
os teus sons que me chegavam de lá de fora
e pensava que um dia
haveria de ser eu a fazer ruídos
e tu a ouvir-me gritar,
cada vez mais alto,
o som dos ventos que assobiavam nos meus ouvidos.

Havia noites
em que era mesmo eu a fazer ruídos,
a chamar-te com medos que eram meus
e eras tu que vinhas e
me acalmavas,
que torneavas,
me acariciavas com as tuas mãos
de Pai maior
e me davas o silêncio
que eu tanto queria.
O teu silêncio era a minha paz.

Houve um dia
em que deixei de te ouvir,
em que as lágrimas faziam
barulhos
duros
demais.
Em que a cabeça era tão grande
– e tão vazia
que o meu corpo doía por estar tão descompassado,
largado,
perdido,
escorrido,
fingido,
cheio de nadas (que me obrigavam a dar tudo),
quando o que eu mais queria
era ter o tudo que tu me davas
com tão pouco.

Há um hoje
em que ainda penso em ti
e sinto a revolta de não ter-te comigo.

Há um hoje
em que ainda choro
a primeira lágrima do ontem quando não te vi.

Há um hoje
que deseja olhar-te, ver-te,
apalpar a tua mão na minha,
querer abraçar-te
e apertar-te
maior
e mais alto
e ouvir o teu silêncio único,
sozinho,
tão meu,
tão nosso.

Há um hoje
em que o teu silêncio
era tudo o que eu queria ouvir
– agora.

A camisa que visto do avesso

O mundo está do avesso.
Lavemos as camisas, passemo-las a ferro e joguemo-las no lixo. Compremos meio metro de seda nova, e façamos uma nova. Que seja azul, cor de rosa e verde com amarelo e que nunca a deixemos romper. Arregacemos as mangas e entreguemos o peito a um mundo vestido de fresco, de camisas não rasgadas nem tingidas e botões com fechaduras de abrir. As respostas estarão nos bolsos da frente e as certezas nas linhas cosidas.

Eu sou a camisa que visto e não a camisa que tu me compras.

Um fogo de vida no peito

Encontrei a minha vida
povoada por barulhos
indiscretos, negros
ruidosos,
remendos embrulhos
que nunca quis ter,
não queria ouvir,
não queria resolver.
Sonhava com silêncios calmantes
paradisíacos
amantes
dos ouvidos das minhas
mentes cúmplices das veias do meu corpo:
– se mexem devagar elevando somente
a teia
ríspida e meiga
das arestas do meu respirar.
Encontrei a minha vida e parei-a.
Pairei sobre ela voando nos círculos do tímpano interno insatisfeito.
Soprei-lhe um sopro de morte nos ouvidos.
E ela atiçou-me um fogo de vida no peito.

Sinto-me aguçadamente anulada

Dei por mim a ouvir murmúrios escondidos
sons que me batiam de longe, levemente.
O tempo passava e sentia mais alto, esse barulhos,
esquecidos
agoniados
exaltados
na minha mente.
A nódoa negra que me aparecia seria ouvida
– não vista, não tocada, não na pele sentida.
De cada conversa que me iniciava na boca
servia perdida, sem vida,
o prato da comida seca, sem água, sem açúcar, sem sangue verdadeiro.
Servia vezes sem conta,
Esse murmúrio mais alto, mais escuro, mais hospedeiro.
Penteio
os cabelos
que se soltam na água.
Apareces-me ao relento
e te disparo, te acerto, te enxovalho.
Te recomeço de novo sem defeito.
Revoltas-me em círculo,
torneada
remendada
aguçada.
Em volta de mim mesma sou anulada,
Em torno de mim própria sou abandonada.

Um dia…

“Um dia, gostava de pintar o mundo com sonhos, certezas e magias sem fim. De manhã acordei tranquila, dentro de um livro de páginas brancas, depois escrevi algumas linhas tortas e soltei o fio dourado da capa de trás. Voaram três pássaros azuis brilhantes e pousaram duas andorinhas brancas e perfumadas.

Estavas reluzente, impávido e sem voz. Disse-te um sorriso tímido e acenaste um olá. “Bom dia…” Foi um único e simples som. Abracei-te com a largura do mundo e ao mesmo tempo larguei-te como não se larga nada, leve e sem peso. Um dia feliz nasceu no dia em que te vi, outros dias felizes nasceram nos dias seguintes.”

Inteiramente partida

Quando me parti em metade de mim

fiquei com menos de mim inteira,

mas de cada metade partida minha,

tenho uma metade inteira tua.

São pedaços partidos de cores cheias,

os nossos olhos enchidos de brilhos inteiros.

São a inteira feita que eu era,

com a partida tua que sou agora.

Esvazio-me inteira daquilo que sou,

para me encher partida, daquilo que és.