A camisa que visto do avesso

O mundo está do avesso.
Lavemos as camisas, passemo-las a ferro e joguemo-las no lixo. Compremos meio metro de seda nova, e façamos uma nova. Que seja azul, cor de rosa e verde com amarelo e que nunca a deixemos romper. Arregacemos as mangas e entreguemos o peito a um mundo vestido de fresco, de camisas não rasgadas nem tingidas e botões com fechaduras de abrir. As respostas estarão nos bolsos da frente e as certezas nas linhas cosidas.

Eu sou a camisa que visto e não a camisa que tu me compras.

Um fogo de vida no peito

Encontrei a minha vida
povoada por barulhos
indiscretos, negros
ruidosos,
remendos embrulhos
que nunca quis ter,
não queria ouvir,
não queria resolver.
Sonhava com silêncios calmantes
paradisíacos
amantes
dos ouvidos das minhas
mentes cúmplices das veias do meu corpo:
– se mexem devagar elevando somente
a teia
ríspida e meiga
das arestas do meu respirar.
Encontrei a minha vida e parei-a.
Pairei sobre ela voando nos círculos do tímpano interno insatisfeito.
Soprei-lhe um sopro de morte nos ouvidos.
E ela atiçou-me um fogo de vida no peito.

Sinto-me aguçadamente anulada

Dei por mim a ouvir murmúrios escondidos
sons que me batiam de longe, levemente.
O tempo passava e sentia mais alto, esse barulhos,
esquecidos
agoniados
exaltados
na minha mente.
A nódoa negra que me aparecia seria ouvida
– não vista, não tocada, não na pele sentida.
De cada conversa que me iniciava na boca
servia perdida, sem vida,
o prato da comida seca, sem água, sem açúcar, sem sangue verdadeiro.
Servia vezes sem conta,
Esse murmúrio mais alto, mais escuro, mais hospedeiro.
Penteio
os cabelos
que se soltam na água.
Apareces-me ao relento
e te disparo, te acerto, te enxovalho.
Te recomeço de novo sem defeito.
Revoltas-me em círculo,
torneada
remendada
aguçada.
Em volta de mim mesma sou anulada,
Em torno de mim própria sou abandonada.

Um dia…

“Um dia, gostava de pintar o mundo com sonhos, certezas e magias sem fim. De manhã acordei tranquila, dentro de um livro de páginas brancas, depois escrevi algumas linhas tortas e soltei o fio dourado da capa de trás. Voaram três pássaros azuis brilhantes e pousaram duas andorinhas brancas e perfumadas.

Estavas reluzente, impávido e sem voz. Disse-te um sorriso tímido e acenaste um olá. “Bom dia…” Foi um único e simples som. Abracei-te com a largura do mundo e ao mesmo tempo larguei-te como não se larga nada, leve e sem peso. Um dia feliz nasceu no dia em que te vi, outros dias felizes nasceram nos dias seguintes.”

Inteiramente partida

Quando me parti em metade de mim

fiquei com menos de mim inteira,

mas de cada metade partida minha,

tenho uma metade inteira tua.

São pedaços partidos de cores cheias,

os nossos olhos enchidos de brilhos inteiros.

São a inteira feita que eu era,

com a partida tua que sou agora.

Esvazio-me inteira daquilo que sou,

para me encher partida, daquilo que és.

Porto: e fizemos amor em todas as praças

Persegui-te. Foram dias sem fim e horas cheias de começos.
Passavas e nem reparavas.
Andavas por mim abaixo e não me vias.
Cheiravas meus cantos e não me ouvias.
Corrias e fugias e nem me alcançavas.
E numa noite quente, em que parei de te olhar,
vieste doido pelas luzes e enfeitiçado pela lua
e por mais que eu descesse, por mais que eu corresse,
por mais que eu não te olhasse mais,
querias que nessa noite eu fosse tua.

E então fui contigo,
corremos as flores e todos os aliados,
levantamos a bandeira em todas as ribeiras
e fizemos amor em todas as praças.
Ousamos o mundo nas ceutas do almada
e retorcemos a vida nos reis de paris.
Beijei-te longamente na ponte de ferro
com a promessa de sempre
e para todo o tempo,
te fazer feliz.